– Amiga, aonde você tá indo? – Dani perguntou.

– Vou dar uma volta por aí, cansei dessa festa! – Eu falei já indo em direção a porta.

– Quer que eu vá com você?

– Não precisa Dani, você ta curtindo a festa, eu é que não to no clima disso hoje. Relaxa. – Falei.

Era um alívio aquela sensação de que eu estava me afastando de todo aquele barulho e aquelas pessoas. O condomínio era grande, e eu não conhecia nada dali. A festa era no salão de festas principal, então resolvi ir pro outro lado daquele lugar.

Depois de andar bastante e procurar um lugar sossegado, encontrei um parquinho para crianças que parecia ser a única opção para quem quisesse ficar sozinho, no caso, eu. Para a minha sorte tinha um pula-pula abandonado lá também, não pensei duas vezes, fui deitar lá.

E quando fui notar, tinha uma perfeita visão para o céu. Pena que estava com muitas nuvens e as estrelas pareciam brincar de se esconder atrás delas. A única coisa que dava para ver, as vezes, era a Lua. As vezes porque tinham horas que ela também resolvia entrar na brincadeira e sumia entre todas aquelas nuvens.

Perdi um pouco a noção do tempo enquanto estava lá observando o movimento de toda aquela imensidão naquele lugar que se for visto de manhã, com todas aquelas crianças brincando e pulando, ninguém poderia acreditar que a noite viraria esse “planetário” natural. Exagero? Talvez. Mas acho que estava envolvida com aquilo tudo, tinha o direito de exagerar um pouco.

Naquele lugar não dava para escutar um ruído sequer da festa, aliás, nem lembrava mais o verdadeiro motivo ao qual eu fui para lá, nem conhecia direito a aniversariante. Ah, lembrei. A Dani me levou junto já que além da aniversariante, só conhecia mais uma menina que iria com o namorado, então ela não quis ficar de “vela” para o casal e resolveu me levar junto. Mas quem tinha sobrado de vela fui eu, porque Dani também estava acompanhada. Conheceu um menino que estava lá e o resto não preciso mais contar. Enfim… Isso foi logo no início da festa, então mal vi o que tinha lá ou quem estava lá. Erro meu, deveria ter dado uma volta por aquele salão para eu descobri se valia ou não a pena continuar naquele lugar.

Mas não demorou muito para eu descobrir pessoas que eu conheço em comum com a dona da festa. E o silêncio também não durou muito tempo. Comecei a ouvir um barulho de como se alguém estivesse se aproximando do parquinho, o que me assustou bastante já que não era muito comum crianças irem brincar na área de recreação do condomínio durante a madrugada. Não sabia se levantava e saia dali correndo ou se continuava deitada e rezava para que não percebessem que eu estava ali. Não sei exatamente o porquê, mas eu resolvi ficar. Então só virei a cabeça delicadamente para o lado para que quem quer que fosse não me notasse, e vi só uma sombra, já que estava muito escuro, e não deu para ver quase nada. Mas parecia ser um garoto, e mais ou menos da minha idade, e ele estava sozinho. Foi só o que eu consegui ver antes de voltar a olhar para o céu quando percebi que ele não estava indo apenas em direção ao parquinho, era mais que isso, ele estava indo exatamente em direção ao pula-pula. Sim, no que eu estava. Sem mais tempo para correr ou fazer qualquer outra coisa que viesse na minha cabeça, resolvi que o melhor a fazer naquele momento era continuar ali onde estava na mesma posição do início.

O indivíduo simplesmente ENTROU no pula-pula –bom, pelo menos ele não entrou pulando nem algo do tipo – E então quando eu olhei para ele, vi que era o Greg! O Greg! Como assim? O que ele estava fazendo ali? Surgiu do chão, foi tele transportado, ou o que? Por um segundo achei que eu estava delirando, sei lá, as vezes o amor faz isso com as pessoas, mas isso não vem ao caso. Depois de me recuperar –em parte- do susto, pensei que não era tão impossível assim ele estar ali, afinal, ele poderia estar na festa também e eu não o notei.

– Posso ficar aqui? – Ele perguntou.

– Ah, pode. Mas…

– Mas…? – Greg estava com uma expressão confusa.

– O que você ta fazendo aqui? – Perguntei.

– O mesmo que você. – Ele falou já deitando do meu lado e ao invés de olhar para mim, olhou para o céu. Eu fiz o mesmo. – Vim para a festa, só que não estava me divertindo. Mas vi que você não estava mais lá, e resolvi te procurar. – Ele não tirou os olhos do céu nem um segundo sequer, nem eu na verdade, mas pude perceber isso pela minha visão panorâmica.

– Eu não tinha te visto lá na festa. Se você me viu, por que não veio falar comigo? – Perguntei para ele.

– Eu ia, mas quando resolvi tomar coragem você já não estava mais lá dentro.

– Coragem? – Não consegui controlar uma risada discreta, na verdade não sei nem se ele percebeu.

– É uma pena o céu estar sem estrelas hoje… – Ele desconversou, fingi que não percebi e respondi.

– O céu não está sem estrelas! Elas estão lá em algum lugar, sempre vão estar. Só que é como se às vezes elas se cansassem de brilhar tanto e resolvem se esconder atrás das nuvens. – Falei. Greg não conseguiu segurar a risada, e a dele não foi discreta como a minha, muito pelo contrário. – O que foi? Falei algo tão engraçado assim?

– Engraçado? Não mesmo. Para falar a verdade, sua teoria sobre estrelas cansadas de brilhar são bem convincentes! – Ironizou.

– Ah, cala a boca! – Falei rindo.

– Ainda bem que a Lua não se cansa nunca. – O ar sarcástico dele parecia ter sumido. – Ela sim está sempre lá e parece brilhar cada vez mais… – Olhei para ele com uma cara surpresa.

Ele também virou para mim e falou:

– Ah, também posso falar coisas “poéticas” de vez em quando… – A ironia parecia ter voltado como num passe de mágica.

Fiz uma cara de descrente e ele riu, e continuou me olhando, mas dessa vez sem dizer nada.

Olhei mais uma vez para o céu e uma estrela tinha acabado de sair de trás de uma das nuvens, apontei para cima para mostrar para ele. Mas ele continuava me olhando e parecia não se importar com mais nenhuma estrela.

Virei para o lado e perguntei por que ele estava me olhando daquela maneira, e ele falou:

– É impressionante como podemos estar todos os dias frente a frente com alguém, mas mesmo assim é como se não estivéssemos. Como não notei você antes?

– Talvez você tenha notado, mas não percebeu isso. Na verdade é como se todas as pessoas fossem invisíveis e só se tornassem visíveis no momento certo.

– Esse parece ser o momento certo. Só consigo pensar em uma coisa agora. – Greg se levantou parcialmente e ficou apoiado com apenas um braço. E ele se aproximava de mim cada vez mais.

Eu sabia o que ele queria naquele momento, era o mesmo que eu. Mas de repente ele parou de se aproximar e simplesmente ficou me olhando. O que me deixou um pouco confusa. Ele só conseguia sorrir e olhar nos meus olhos. Numa palavra foi dita.

– E AÍÍÍÍÍÍ GENTE! – Não acredito que isso aconteceu! Esse idiota tinha que chegar logo agora? Arthur parecia ter descoberto o único lugar sossegado daquele condomínio. – OPA, to atrapalhando alguma coisa? – Greg virou para trás e olhou para ele, o fuzilando com o olhar. Não lembro muito bem, mas acho que fiz o mesmo.

– Ih, que cara é essa? Não me meti em nenhuma confusão hoje não, fica tranquilo! – Disse Arthur. O que fez Greg deitar de novo e dar um suspiro profundo de tédio. Poderia imaginar perfeitamente o que ele estava pensando, algo como “o que esse idiota ta fazendo aqui?”. Mas ele não falou nada, apenas revirou os olhos e ignorou o amigo completamente.

– ARTHUR! VEM AQUI AGORA! – Um grito feminino surgiu de algum lugar, seja lá quem tenha sido, fez Arthur levantar correndo do pula-pula.

– Sujou brother, pelo grito a parada não é boa coisa. Vou lá ver o que a Dani quer comigo. – Ele disse e saiu correndo.

Ah, foi a Dani… impressionante como ela sempre me salva.

Greg virou a cabeça para me olhar, e falou:

– Aonde é que a gente estava mesmo? – Aquele sorrisinho torto dele me deixava completamente hipnotizada.

Me aproximei dele e me apoiei sobre o seu peito.

– Acho que aqui… – Sorri e o beijei. Nosso primeiro beijo foi algo que definitivamente pode ser chamado de maravilhoso, surpreendente, perfeito e até mesmo inesquecível.

Depois que nossos lábios se afastaram parecia que eu tinha acabado de voltar para a Terra, e que durante aquele beijo estava em algum outro mundo desconhecido. Ele estava com o braço em volta de mim e então eu deitei e voltamos a olhar para o céu.

Ele falou que queria continuar ali naquele pula-pula comigo, para sempre. O para sempre não foi tão para sempre assim. Apenas até o final da festa, quando o segurança teve que ir nos avisar que o salão e o parquinho já estavam sendo fechados. Nossa noite naquele pula-pula por mais que tenha durado algumas horas, pareceu ter durado meses, e durante esse tempo ficamos ali entre beijos, algumas estrelas que resolviam aparecer, e a Lua, que como ele disse, parecia brilhar cada vez mais.

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