Bom, tem tempo que não posto algo aqui. Em minha defesa, devo dizer que estou no meio de uma viagem dos meus sonhos (estou fazendo intercâmbio na Inglaterra) e por isso eu meio que deixei muitas coisas de lado. Vocês devem estar pensando que está tudo perfeito por aqui, e que estou vivendo um conto de fadas com “príncipes” e/ou cavalheiros britânicos e etc. Pois bem… Acho que preciso contar uma parte desse meu conto de fadas (really?) aqui.

Estava eu voltando da minha aula e de um passeio no shopping às 17h20 aproximadamente, para ser mais exata, fui pegar o ônibus na estação para voltar pra casa, já estava pensando no meu banho quente relaxante e na sessão do cinema que eu iria pegar ainda naquela noite.

O ônibus 43 finalmente chegou. Quando dei meu ticket para o motorista, ele me informou que eu simplesmente estava no ônibus errado, e que o 44 era o que eu deveria pegar e ele sairia só em 25 minutos. Ok, foi um pouco constrangedor já que tinha uma fila de pessoas atrás de mim esperando para entrar no ônibus e eu tive que passar por todas elas para voltar ao banco da estação e esperar mais.

Quando o 44 chegou, entrei nele e sentei no lugar de sempre, canto esquerdo, banco da janela. Liguei meu iPod como de costume e recostei a cabeça na janela não vendo a hora de chegar em casa. No início do trajeto eu prestava atenção em umas partes do caminho enquanto a música rolava e eu pensava em qualquer outra coisa. Mas como já estava completamente escuro (aqui 17h da a impressão de 20h, é sério.) e eu não via muito bem as coisas de longe sem o meu óculos, desisti de apreciar a paisagem e me desliguei do que passava pela janela, afinal eu saberia a hora certa de descer, ou pelo menos deveria saber.

A viagem que normalmente dura de 20 a 30 minutos, já passava de 45 e eu comecei a achar estranho quando percebi, já que não tinha nenhum tipo de trânsito intenso nem nada. Olhei para a janela e não via mais casas, só árvores e a estrada onde estávamos. Primeiro pensei que estivesse perdida, mas logo então achei que devia ser só uma parte do caminho que eu ainda não tinha prestado atenção, então resolvi esperar mais um pouco para ver no que daria. Um pouco menos de 10 minutos se passaram e eu decidi pedir informação à moça que estava sentada ao meu lado e parecia bem simpática.

Luísa: “Com licença, a senhora pode me informar em que parte de Whickham nós estamos?”

Moça: “Não estamos mais em Whickham, já estamos em *** (nome do lugar que eu esqueci).”

Gelei.

Não sabia o que fazer para sair dali, não conhecia exatamente nada daquele lugar. Então pedi mil desculpas para a moça e perguntei se poderia usar o celular dela. Ah, claro, para completar meu celular não estava com bateria suficiente para fazer uma ligação. Ainda me pergunto: por que diabos o celular ainda está ligado então? Se não serve nem para fazer uma mísera ligação? E foi quando o celular desligou de vez. “Ok, ótimo”.

A moça emprestou o celular e eu pude avisar à minha “host mom” que estava perdida (ótima notícia para se dar, não?). Logo depois disso pedi alguma opinião do que fazer para a tal moça, porque eu não conseguia pensar em muitas opções viáveis no momento. Ela disse que eu poderia ir perguntar o próximo ponto do 44 para voltar para Whickham. Foi isso que eu fiz.

Perguntei ao motorista onde era o próximo ponto para voltar, e ele me deu uma bronca por ter perdido meu ponto!!! Tipo, oi? Enfim, era logo ali na frente, naquela mesma rua, naquela rua escura, vazia e fria. Chegando no ponto, fiquei lá em pé esperando o ônibus. De repente apareceu uma pessoa toda vestida de preto, com um capuz tapando boa parte do rosto, e um cigarro na mão. Não preciso nem falar que nessa hora meu coração foi parar na boca, né? Fingi que não vi a criatura e torci para que ela passasse direto por mim e fizesse o mesmo. Mas para a minha sorte ela também parou no ponto de ônibus, do meu lado. Ele, para ser mais exata. Era um menino que parecia ter no máximo 19 anos, loiro, cabelo jogadinho pro lado, aquilo de sempre. Tenho que admitir que era bem bonito.

Depois de algum tempo em pé esperando o ônibus e com muito frio, resolvi sentar em uma placa de cimento que tava no chão. Eu já tava batendo o queixo de tanto frio, e não conseguia controlar isso. Como tava muito silêncio naquela rua, o barulho dos meus dentes batendo poderia ser facilmente percebido pelo tal menino. Ele olhava algumas vezes e tentava não rir da situação, e eu enquanto isso tentava de tudo para sair logo daquele lugar bizarro.

O ônibus finalmente chegou (depois de 20 minutos de espera). Eu tava procurando a carteira dentro da bolsa, só que estava com luvas, então não conseguia sentir as coisas direito, e tava com as sacolas de compras penduradas também em mim, ou seja, tava foda (desculpa mas não achei outra palavra para descrever melhor a minha situação no momento). Disse para o menino passar a minha frente porque eu ia demorar. Ele pagou a passagem dele, sentou e eu ainda estava lá procurando a minha carteira. O motorista ficou um pouco sem paciência e falou para eu sentar e dar o dinheiro depois. Quando virei para trás, o ônibus estava completamente lotado, só tinha um lugar do lado do motorista ou o banco do lado do tal garoto que estava no ponto de ônibus. Ele me olhou dando um sorriso de lado, eu fiz o mesmo, só que preferi sentar do lado da cabine do motorista. Pelo menos até achar o dinheiro.

Quando tudo já tava certo e tudo que eu deveria fazer era esperar para chegar no ponto certo e finalmente chegar em casa, eu pensei em mudar de lugar e sentar do lado do menino. Aquele banco excluído que eu tava era bem desconfortável e apertado. Levantei e fui em direção ao unico lugar restante no ônibus. O garoto se ajeitou para chegar pro lado, mas eu acabei mudando de ideia e abri um dos bancos do espaço para deficientes e sentei ali. Afinal, eu tinha que me concentrar em chegar em casa, e só.

Cinco minutos depois disso o menino desceu, e parecia estressado. Quando o ônibus andou depois de deixá-lo na rua, ele ficou olhando fixamente para mim sentada no outro lado do ônibus, mas virada para a janela da calçada (não sei se consegui ser clara, mas tudo bem). Eu fiquei meio tensa quando percebi o olhar fixo dele, e ele ainda com aquele capuz. Não consegui desviar o olhar e acabamos nos encarando por alguns segundos. Até o ônibus pegar uma velocidade suficiente para deixarmos o menino para trás.

Resumindo o final da história, quando vi o muro da casa que costumo ficar sentada esperando o ônibus para ir para o centro da cidade de manhã, levantei num pulo e pressionei rápido e com força o botão para fazer sinal e acabei afundando ele. Esperei que ninguém tinha visto e fui descer do ônibus. O motorista parou muito mais na frente, no ponto seguinte para ser mais exata. E então eu tive que ir andando até aquele ponto para depois ir andando até a casa. Aquela rua também estava vazia e escura e tinha umas casas muito escuras e com o jardim aberto, parecia que sairia a qualquer momento uma criatura de lá querendo me atacar. Depois da neura, comecei a andar mais rápido e como se não bastasse a situação, fui reclamando comigo mesma até a porta de casa, falando sozinha no meio da rua. Bom, pelo menos ninguém mais viu.

Não sei se pareceu uma história realmente assustadora como foi para mim que vivi tudo isso em um país “desconhecido”. Mas precisava escrever isso e compartilhar com as pessoas, juro que nunca tive uma aventura dessas. Queria registrar de alguma maneira.

Espero que não aconteça de novo. Amanhã vou ter que pegar o mesmo ônibus, para ir e voltar. Torçam por mim, é tudo que eu peço.

xxx