“Se caso dissesse que não havia doído, estaria mentindo. Doeu. Doeu como facas fincadas no peito. Se há algo do que eu me arrependa, com toda certeza, é não ter dado uns belos tapas na cara daquele cafajeste. Porém não o fiz. Sou tão estúpida á ponto de ir embora e deixá-lo lá, sem saber nem entender o que realmente se passava. Mas, pra falar a verdade, eu já sabia. Sabia dos beijos que eles deram em um beco imundo e escuro qualquer na cidade, sei da noite que passaram juntos e o que fizeram naquele motelzinha meia boca que ele leva suas ‘aventuras’.

Se caso há interesse em saber o que eu fiz depois daquilo, saiba que a resposta é obvia e nada surpriendente: desabei em lágrimas. Me escondi num canto do quarto e chorei. Talvez essa tenha sido a noite mais sombria e fria de todas, mas passou. Arrastada e lentamente, mas passou. Sobrevivi ao vento gelado, ao calor inexistente e a mais uma noite sem você.

Sabe, a escuridão encontrei-nos. Ou perdi-nos, não sei. No escuro havia tudo, e nada. Nada do que me confortar, me acalmar ou regular minhas lágrimas. Mas havia tudo o que poderia de haver para que eu me refizesse.

Não sorri. Nem por vez e meia, não sorri. Meus lábios estão secos e imóveis, intocados como nunca estiveram. Mas poucas palavras servem para mostrar-lhe que morri. Que noite passada pereci sobre o nascer da Lua, e que a garota que tu conhecias fora enterrada á sete palmos. Não há luto, nem tão pouco votos de miséricordia. Ela mereceu. Não deveria ter sido tão ingênua. Mas não se preocupe, inocência nunca me fez falta.

Dormi só essa noite, e é que em alguma hora cheguei a dormir. Russell não volta para casa á alguns dias. Começo a desconfiar que esse é só mais um clandestino á me deixar.
Decidi que irei procurar o fulano. Sei o que ele havia me pedido, mas decidi que irei encontrá-lo, ou que serei encontrada. Porque, agora, o que mais do que nunca.

Estou faminta por vingança, soprei ao vento os segredos para ele me guiar. Vi andorinhas negras cortarem o céu, e entendi.

Então isso é crescer.

Chorei  tudo o que pude ontem á noite, fiz-me em cacos e mais cacos, todos jogados naquele maldito canto do quarto. Quis sempre ficar fora da penumbra de vida que se refaz a cada manhã, mas hoje, dedici que serei o foco da tal. Dizem por ai que desamores nos tornam gélidos e calculistas. Exagero. No máximo te faz ver a vida de outro jeito. E é assim que pretendo seguir. Não retornei tuas ligações, deixei todas á merce da secretária eletrônica, e depois de oito ou nove ligações, bloquei teu número. Se é para te esquecer, que seja por completo. Porém, não se preocupe, minhas lágrimas secaram sozinhas, já sei me virar.”

xxx