“Mas minha menina, nem tudo é só dor. A gente vai perdendo pra encontrar depois, a gente vai ficando na espera, na fila, contando os minutos – que parecem horas – enquanto o tempo voa. A gente fica pra trás – pelo menos uma, duas, ou três vezes -, vivendo umas amarguras e delongas. Eu sei que a poeira da memória irrita os olhos, corta o peito, dói ter os joelhos esfolados e a alma do mundo nas costas. Dói carregar as lágrimas guardadas de um universo há anos e sentir demais, mas para isso não há curativos, nem anestésicos. Ter o coração nas mangas disposto a dar sempre na última cartada custa uns sacrifícios e algumas noites em claro. Teu baralho é completo. Mas a vida é isso; ser mais entrega do que ganho, ou ainda uma contradição complexa entre uns versos de algum poema bonito, com rimas. Onde o tempo todo estamos a dar, apesar de às vezes, nada termos.”

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