“Você nunca vai entender. Esse é o problema. Sei que venho tentando salvar esse protótipo de relação que temos faz tempo, buscando desculpas por meio de frases clichês que dizem que o amor não deve morrer, mas hoje eu vejo o que você quis dizer quando bateu o telefone na minha cara. Não é falta de amor: é a simples inexistência dele. Você disse que não saberia o que fazer caso eu fosse embora, disse que os céus se tornariam negros e que nada teria graça sem meu riso, mas você não entende. Você nunca sentiu medo. Você nunca soube o que é segurar o corpo com as mãos e o mundo com as costas. Se a Terra explodisse amanhã, se acontecesse uma segunda Peste Negra, se Hitler reaparecesse das trevas caçando todos os morenos insensíveis do planeta… Você não iria pestanejar. Você não sabe o que é sentir as mãos tremeram e o estômago se apertar por não saber o que vai acontecer. O problema é esse: você sempre soube demais. Você tem certezas demais sobre tudo, e isso te dá segurança nos momentos de aperto. Se nem mesmo uma guerra nuclear te causa receio, porque me perder causaria? Viu? Eu te disse que nunca daria certo. Você nasceu sendo assim, com o ego maior que o corpo. Faz parte do que você é. Não me entenda mal… Só que eu sei o que é sentir pavor quando o sol desaparece no horizonte. Eu sei como é precisar trancar a respiração, porque a entrada do ar te dá calafrios. Eu sinto medo. Sinto pavor. Pânico. E eu conheço você. Sei que a qualquer momento você pode apenas dar as costas e ir embora, sem piscar, sem sentir remorsos. Você nunca sentiu medo, e eu não quero viver na margem do erro. Você nunca sentiu medo, e eu preciso de alguém que não vá rir quando eu der um passo para trás. Você nunca sentiu medo, e eu fecho os olhos porque cada grão de poeira fora do lugar me assusta. Você nunca desejou bem maior do que a si mesmo, e eu me contentaria em sorrir umas duas vezes ao dia. Eu sempre quis o mundo, e você disse que se realizaria em manter os braços sobre mim. Você não entende nada, e eu sempre achei que soubesse de tudo. Mas você me provou que eu estava terrivelmente errada… Sei o que é certo e errado, sei em que lugar pôr acentos e quais palavras dizer. Mas ainda não aprendi a colocar pontos finais. No lugar mais escuro da minha alma, resta a certeza mais sombria que já me ocorreu… Você ainda me confunde.”

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