“Não sei lidar com essa gente simples, que quis dizer o que disse, sem entrelinhas, sem drama, nenhuma vírgula subentendida. De verdade, não sei ouvir uma coisa e não imaginar mil coisas em cima e por trás disso, tentando adivinhar os pensamentos mais secretos e sentimentos mais profundos de alguém que só disse “Bom dia”, porque ninguém diz “Bom dia” assim, á toa. E o que me enlouquece é que sim, tem quem diga e eu pareço louca e paranoica, mas eles que são rasos e literais demais. E o meu apego quase nunca é apego, é só um nome bonito, uma capa rosa-bebê pro meu egoísmo medíocre. É meu e fim, nunca mais pode ser ninguém, ainda que eu não queira mais. Quero guardar todos numa gaiola em cima do armário, mesmo que me esqueça da maioria deles, só por ter, patético, eu sei. Mas meus sentimentos mesquinhos também são sentimentos e eu não posso expulsar, ignorar, eu sinto. Então não diz que me quer, não pensa em despertar qualquer interesse meu, não me diz Oi se for só Oi, me poupa! É só o que eu peço. Porque eu sou apaixonada por pronomes possessivos e ter que ficar disfarçando minha loucura é o tipo de coisa que realmente me enlouquece. Então pula essa parte! Vem pra valer, vem pra ficar ou não vem, pode ser? Chega de gente minha se encontrando fora de mim. Chega de perder amores pra liberdade, que no fundo é só uma droga de gaiola grande. Chega e fim. Aprender a conviver com a solidão me parece bem mais prático do que aprender a abrir mão de pedacinhos de mim.”

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