“Ninguém sabe, mas eu luto todos os dias. Pra não acabar virando pequena, medíocre, covarde, egoísta, hipócrita… pra não virar um monstro, criação dessa gente toda que eu sempre abominei. Deus me livre. E que Ele também enfraqueça todos os meus impulsos de pagar na mesma moeda suja, fazer o mesmo jogo baixo por uma vitória vazia, é só que eu peço, baixinho. Sou metida a dona da verdade, senhora da razão, chamem como soar mais bonito, eu sei, sou mesmo. Mas procuro apontar o dedo pra mim com muito mais julgamentos do que pra qualquer outra pessoa. A mudança começa na gente, eu sempre soube, mas me controlar é difícil até pra mim mesma. Não faz muito tempo, andei reparando que eu baixei a guarda sem perceber, me distrai, me rendi sem querer. Tava muito mais próxima do que eu tenho horror do que das coisas que eu sempre lutei a favor e não sei em que momento exatamente essa transição aconteceu, mas fico feliz por ter percebido a tempo. Me concentrei tanto em táticas e equipamentos de defesa cega, de tudo e de todos, que acabei me deixando corromper. Quem roubou minha coragem, minha natureza de dar a cara a tapa, eu acho que nunca vou saber… mas sei quem me fez olhar bem fundo no espelho e repensar se era aquela imagem refletida que eu queria ser, que eu construí, que eu admiro. Hesitar foi a pior resposta que eu poderia ter tido. Sou forte, novas feridas já não sangram, mas e aí? Tô cinza. Minha força nunca foi essa, nunca foi bruta. E a partir de hoje eu vou dar início ao processo de enfraquecer. Porque ser assim, não sendo, não vale a pena. Vou procurar um meio termo, uma posição saudável, não sei. Mas não sentir dor também dói, porque aqui dentro fica tudo oco e o vazio pesa toneladas. Não sentir não me pertence, porque depois de estar dos dois lados eu tive certeza que as minhas crenças e ideologias de antes, puras e anteriores a todo o sangue derramado, eram quem eu realmente sou e o que eu acredito. Isso aqui agora é só cara de mau pra me poupar de tudo que eu viveria de peito aberto, se fosse ontem. Então chega de corpo, mente e alma fechados. Vida, vem cá, que eu voltei!”

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